MITOS E O SENSO DO SIMBÓLICO
“Com o mito deixa-se de existir no mundo de todos
os dias e penetra-se num mundo transfigurado”. Mircea Eliade
MITO - Segundo o mais famoso mitólogo, Mircea Eliade (cf. Livro: Mito e Realidade):
· Mito é uma realidade cultural exremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares;
· Relatam uma série de eventos que se verificaram num passado distante e fabuloso. Embora os protagonistas dos mitos sejam geralmente Deuses e Entes Sobrenaturais, enquanto os dos contos são heróis ou animais miraculosos, todos esses personagens tem uma característica em comum: eles não pertencem ao mundo cotidiano;
· Os mitos narram não apenas a origem do mundo, dos animais, das plantas e do ser humano, mas também de todos os acontecimentos primordiais em conseqüência dos quais o ser humano se converteu no que é hoje – um ser mortal, sexuado, organizado em sociedade, obrigado a trabalhar para viver, e trabalhando de acordo com determinadas regras.
· Se o mundo existe, se o ser humano existe, é porque os Entes Sobrenaturais desenvolveram uma atitude criadora no “princípio”. Ele é mortal porque algo aconteceu se não ele não morreria. Mas o mito da origem da morte conta o que aconteceru;
· Conhecer a origem de um objeto, de um animal ou planta, equivale a adquirir sobre eles um poder mágico, graças ao qual é possível domina-los, multiplica-los ou reproduzi-los à vontade;
· De modo geral pode-se dizer que o mito, tal como é vivido pelas sociedades arcaicas:
1. constitui a História dos atos do Entes Sobrenaturais;
2. que essa história é considerada absolutamente verdadeira e sagrada;
3. que o mito se refere sempre a uma “criação”, contando como algo veio a existência – os mitos constituem os paradigmas de todos os atos humanos significativos;
4. que conhecendo o mito conhece-se a origem das coisas;
5. que de uma maneira ou de outra, “vive-se” o mito, no sentido de que se é impregnado pelo poder sagrado e exaltante dos eventos rememorados ou reatualizados.
· Viver os mitos implica, pois, numa experiência verdadeiramente “religiosa”, pois ela se distingue da experiência ordinária da vida cotidiana. Com o mito deixa-se de existir no mundo de todos os dias e penetra-se num mundo transfigurado. O indivíduo invoca a presença dos personagens dos mitos e torna-se contemporâneo deles. Ele deixa de viver no tempo cronológico, passando a viver no tempo primordial – tempo forte. Kronos – Kairós
O SENSO DO SIMBÓLICO
As grandes religiões carregam consigo o senso do simbólico. De maneira sadia as religiões devem proporcionar ao ser humano os meios e oportunidades para o desenvolvimento de todas as suas potencialidades, entre as quais está o senso do simbólico. No universo simbólico redescobre, também, as razões de suas buscas, tendo como intermediários os símbolos, as imagens e os mitos. Para isso o estudo do simbolismo é oportuno.
São inúmeras as ocasiões, hoje, para redescoberta da importância de se trabalhar as diversas configurações simbólicas e o valor do símbolo, tanto no desenvolvimento psicológico do ser humano como na qualidade de usa experiência religiosa, como tendência natural, ou seja, como produção do inconsciente.
O ser humano é sujeito do desejo, dos sonhos, das aspirações, das angústias, historicamente condicionado a um mundo espiritual mais potente e aberto para acolhe-lo na sua fragilidade. Ao mesmo tempo é alguém dependente do tempo, do espaço, das circunstâncias, da matéria. Entre uma realidade e outra, busca respostas aos seus questionamentos existenciais, procura responder ao irrespondível.
Para Mircea Eliade, as imagens, os símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psique; eles respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as mais secretas modalidades do ser. Por isso, seu estudo nos permite melhor conhecer o ser humano, o ser humano simplesmente.
O esquema Mito – Rito – Interdito corresponde a uma abordagem da antropologia que tenta explicar a vivência e o desenvolvimento do mito. Por sua vez os grupos religiosos utilizam, na sua maioria, este esquema. Cultivam a crença no transcendente, mas é preciso materializar esta crença. Daí surge a necessidade de criar maneiras de celebrar: surge o rito. Por último temos o interdito, ou seja, é preciso colocar regras de comportamento no grupo. As regras são colocadas para definir claramente o que se pode e o que não pode fazer segundo a doutrina religiosa aceita por todos do grupo.
Bibliografia:
MIRCEA, Eliade. Mito e Realidade. Debates em Filosofia. São Paulo: Editora Perspectiva, 1991.
MIRCEA, Eliade. Tratado de História das Religiões. Lisboa: Cosmos, 1970.
DURAND, Gilbert. Mito Símbolo e Mitologia. São Paulo: Editora Presença, 1982.
[1] CLIFFORD, James (2000). Culturas viajantes. In. ARANTES, Antônio A. (org) O espaço da diferença. Campinas: Papirus
[3] Claude Lévi-Strauss - Foi um antropólogo, professor e filósofo francês. É considerado fundador da antropologia estruturalista, em meados da década de 1950, e um dos grandes intelectuais do século XX.